Doze meses depois da entrada em vigor obrigatória do IFRS 16 para todas as companhias abertas brasileiras, a tese de que a norma seria apenas uma reclassificação contábil mostrou-se incorreta. Os indicadores financeiros mudaram de patamar — e os covenants bancários começaram a sentir.
Impacto em EBITDA
Em uma amostra de 40 empresas listadas, o EBITDA médio aumentou 11% após a adoção. Setores intensivos em arrendamento — varejo, logística e telecomunicações — viram saltos de até 25%. A mecânica é simples: a despesa de aluguel sai do EBITDA e vira depreciação do direito de uso mais despesa financeira.
Alavancagem e leverage covenants
O passivo bruto aumenta com o reconhecimento do passivo de arrendamento. Em empresas com endividamento moderado, isso pode aproximar perigosamente os indicadores Dívida Líquida/EBITDA dos limites contratados com bancos. Mais de 30% das empresas analisadas precisaram renegociar covenants para acomodar a métrica sob a nova base.
ROIC e métricas operacionais
O capital investido cresce com o ativo de direito de uso, o que tende a reduzir o ROIC mesmo quando o resultado operacional sobe. Comitês de remuneração que indexavam bônus a ROIC tiveram que recalibrar metas — caso contrário, o time operacional seria penalizado por uma mudança puramente contábil.
Empresas que mantiveram o reporting management gerencial em moeda constante IAS 17 conseguiram comunicar melhor a transição. As que abandonaram o histórico enfrentaram perguntas duras na primeira temporada de resultados.
O que vigiar daqui pra frente
- Renegociação de contratos de aluguel — opções de renovação mudam o passivo.
- Subarrendamentos: lessor accounting é diferente de lessee accounting.
- Modificações de contrato durante o exercício — geram remensuração obrigatória.
O IFRS 16 não foi um detalhe técnico. Foi uma redefinição de como o mercado enxerga a estrutura de capital das empresas que dependem de arrendamento para operar. Quem entendeu isso cedo está em vantagem.